Conectados sim, mas com autoestima

Delação premiada, STF, Aécio Neves, Cesare Battisti, Michel Temer, Rodrigo Janot, Eduardo Cunha, Dilson Funaro, defesa de Lula, horário de verão, altas temperaturas… Esse é o resumão das notícias da última semana no Brasil. Atrevo-me dar o título de “O calor da safadeza”. Meio óbvio não é? Nosso cenário político está um caos. Nem o Wesley Safadão tem mais safadeza que nosso congresso nacional, senado e poder executivo. Misericórdia! Coloquei o calor no título, pois o que mais li e ouvi essa semana foi: “Que calor”. Ah sem contar nos discursos sobre o horário de verão. Mas eu não quero conversar com você sobre política ou previsão do tempo, mas sim sobre o “contexto” presente nas entrelinhas desses dois temas. O que? “Quentura” e saliência. Entenda.

Um leitor me chamou inbox no Facebook e puxou conversa sobre um monte de coisas. Notei que ele estava enrolando pra falar algo e como sou muito paciente e super zen, solicitei que ele falasse na bucha o que lhe “incomodava”. Eu imaginava, mas não quis bancar o profeta, um personagem interpretado pelo Thiago Fragoso numa novela das seis, onde o cara, Marcos, era um rapaz que previa o futuro.

O leitor sentiu-se seguro e foi direto ao ponto. Relacionamento. Começou falando o quanto gostou dos materiais já postados aqui no “Mão na Roda” sobre a temática. Continuou me confidenciando algumas experiências frustradas tanto pessoalmente quanto virtualmente. Eu estava me sentindo a versão masculina da Laura Muller, sexóloga do programa Altas Horas com Serginho Groisman. Deixei o “Lauro Muller” que existe em mim, ficar mais interessado no assunto e, me permiti rasgar o verbo com o meu paciente, digo, leitor. Compreendi muita coisa que ele contou, mas senti uma enorme insegurança que obviamente era o ápice pras “chatices” até então vivenciadas por ele.

Perguntei se eu poderia contar suas experiências aqui no blog. Imediatamente ele concordou, desde que eu usasse um nome fictício quando o citasse. Mais que compreendido e respeitado. Encarregado de batizá-lo pensei seriamente como eu faria. Senti-me escolhendo o nome de um filho. Cheguei à conclusão e com embasamento em nossa conversa que o nome mais adequado pra ele seria “Donizete Jurandir”, que eu chamarei de Don Juan.

Vamos aos fatos.

Sites de relacionamento. Quem nunca?
Mesmo por curiosidade muitas pessoas ativaram uma conta e depois excluíram. É o caso do Don Juan que quer navegar nos “oceanos” da internet, mas não é um marinheiro experiente nas “águas” das redes sociais. Ele fica extremamente vulnerável a naufrágios nas águas turvas com ondas violentas. Afinal essas “águas” cercam o mundo inteiro, seus navegantes conseguem fazer novos amigos expandindo os contatos, desenvolvendo o dinamismo com a oferta de novos horizontes. Inclusive realiza casamentos. Sim, acredite. Aplicativos que nos informam onde estão os solteiros mais próximos de nossa localização, são os campeões de download. As pessoas não hesitam em se aventurar marcando um “encontro”, afinal o “homão da po##@” a “mulher maravilha” também está ali de bobeira à procura de novas “terras”.

Quando falamos em relacionamentos, sexo, vida a dois, “mozin e mozão” o assunto rende mais que arroz de festa. Uns contam vantagens, outros decepções, tem os que bancam puritanismo e tem os parentes da Rainha Elsa do filme “Frozen”, ou seja, mais gelados e duros que freezer de geladeira sem degelo automático. E quando o mesmo assunto tem pessoas com deficiência como protagonistas? O rendimento de comentários, experiências é o mesmo que arroz de festa? Honestamente, acredito que mais. Entretanto o contexto é bem diferente. Como o relatado pelo marinheiro inexperiente Don Juan, um dos nossos personagens de hoje.

Enquanto conversávamos surgiu a seguinte fala:

– “Aí eu tbm ganhei um match, a gente marcou de se encontrar e tals. Tava tudo de boa, mas qdo eu falei do meu problema fiquei no vácuo. Vc acredita?”
– Acredito.
– “Cara fui chamar ela de novo e “pah”, não consegui falar com ela. Eu nem sabia que tinha como bloquear naquela #$%#. Tenso viu. Que que vc acha? Eu nunca sei se falo antes ou depois, tem regra pra isso? Que $%&$ ushaushushahushausha…
– Antes de qualquer coisa não sorria desse jeito, fico com a sensação de que está sofrendo um derrame. Segundo, você é um jumento. Onde já se viu ficar refém sentimentalmente de uma pessoa que te ignorou num aplicativo de encontros? O que você queria justificar pra ela? Cadê Jesus no seu coração? E o amor próprio? Regra? Que regra, lindão? Cara, temos muito que conversar, sério. Já que me perguntou de regra, vou te passar só uma… SE AME seu aleijado filho da mãe. Não mancha nossa classe, paralítico excomungado. Como que você vai pra internet colocar seu corpinho defeituoso a disposição de alguém, se você não se valoriza? Cara… cara que vontade de te bater, sério.
– Ah mas…
– Mas nada! Fica quieto. Tô com vontade de te dar uma voadora, sério.
– ushaushushahushausha vc é engraçado ashaushushahushausha. Mas vc tem coragem?
– Já falei pra não rir assim, se rir de novo vou ligar pra o bombeiro. Ah e sim, só não tenho coragem de defender político em rede social. De resto? Acho que não tenho problemas.
– Vc é louco cara. Tipo eu sou mais reservado. Só falo por ultimo.
– Burrice. Pura burrice.
– É… Geralmente não rola, mas curto o papo.
– Além de apanhar da vida, você gosta de apanhar nesse tipo de coisa. Que doença. Eu hein! Depois eu que sou doido!
– Ah Túlio, tipo só procuro meninas sem preconceito.
– “Manézão” além de mendigar atenção, você se sujeita a aprovação de alguém que depois de um papo bacana, simplesmente o ignora ao descobrir sua deficiência! Para. Faz isso não, “pêlamor” de si mesmo.
– Vc é comédia “Túlin”.
– Para de me chamar de palhaço. Não, eu não sou comédia. Sou prático, sem “fricotes”. Quer conversar comigo? Beleza. Não quer? Beleza também, uai! Você acha que o Rodrigo Hilbert ganhou o título de “homão da p@##$ por ficar mendigando atenção da “Fê”? Não “mermão”. A “Fernandinha” sabe que se ela não quer, tem quem queira.
– ushaushushahushausha cara vc jura que tá comparando a gente com aquele cara? ahaushushauhuahuaahu… Túlin vc num existe! Eu racho “véi”.

(…) Essa conversa durou boa parte da minha madrugada. E a principal dúvida era se durante as conversas em aplicativos de relacionamentos afetivos, deveríamos contar sobre nossas deficiências antes ou i da coisa ficar mais íntima?

O “Donizete Jurandir”, digo, Don Juan, está no auge dos seus trinta e poucos anos e tem sofrido inúmeras crises de existência no aspecto sentimental, sexual. Ele vive “pendurado” em chats, blogs, grupos, sites que prometem relacionamento rápido e mega fácil. Até aqui nada demais. O grande problema é o baixíssimo nível de autoestima, a insegurança em vários aspectos que ele oferta a si e aos outros.

Não estou desmerecendo as dificuldades e desafios que nós, pessoas com deficiência, enfrentamos nesse tipo de relacionamento. Mas acredito que pra superarmos qualquer obstáculo e conquistarmos uma vida amorosa bem-sucedida, devemos nos amar antes de qualquer pessoa. O nível de carência de deficientes é muito alto. E é justamente nesse quesito que surgem os perigos e frustrações quando pessoas carentes e deficientes se aventuram em sites de relacionamento.

Quando qualquer pessoa se cadastra em sites que oferecem esse tipo de serviço, ela precisa estar convicta de que conversará com pessoas melancólicas, carentes, “atiradinhas”, sem pudor, românticos, canalhas etc. Acredito que esse tipo de “entretenimento” exige uma pitada de audácia e gigantescas doses de segurança, discrição, convicção de que não esteja conversando com um maníaco, sociopata, psicopata… Enfim, esse comportamento virtual não pode ser encarado como uma coisa “boba”.

Sendo um grande defensor da inclusão, aprovo a atitude dos colegas com deficiência que se “jogam” nesse oceano de chats, fotos, dicas. Entretanto não apoio e não incentivo deficientes inseguros consigo mesmos se aventurarem em terras cheias de incógnitas.

O Don Juan, me permitiu conversar com ele abertamente sobre isso, afirmei que ele precisa tratar sua autoestima antes de abrir sua vida pra alguém que nunca viu pessoalmente, que não tem certeza se aquela pessoa do outro lado da tela é uma pessoa de bem e, todo aquele protocolo que especialistas de comportamento humano e virtual vivem nos aconselhando.

O “X” da questão não é simplesmente a opção dele em viver nesse ambiente “cibernético”, mas a deficiência emocional que ele sobrepõe antes de qualquer coisa. Explico…

Ele é solteiro, alto, caucasiano, cabelos castanhos, olhos claros, tem ensino superior, trabalha numa grande transportadora, não tem filhos, nem pretende ter, não fuma, não bebe, não tem religião, é independente financeiramente ganhando razoavelmente bem. Resumindo, ele tem muitos “pontos” que o tornam atraente nos “becos” das ruas de “vida-fácil” da internet. Quando ele começa a conversar com alguém, não hesita em vender seu “peixe” contando seus desejos, conquistas, experiências, enfim. Vende um combo perfeito. Pra não ficar só na palavra de vendedor, ele envia fotos do “produto”. Geralmente a compradora do outro lado se empolga, sugere uma permuta, marca data, local, tudo conforme o protocolo. Mas aí o infeliz me solta mais ou menos o seguinte:

– “Só tenho mais uma coisa pra te falar.”
– Pode falar.
– “Você não vai me ignorar?”
– Não. O que foi?
– “Acho que você não vai querer sair comigo”
– Não estou entendo.
– “Seja o que Deus quiser. É que eu sou deficiente”
– Como assim?
– “Eu sou tetraplégico. Sofri uma grave lesão num acidente”
– (Silêncio)
– Vc tá aí?
– (Silêncio ao quadrado)
– Oi acho que sua internet caiu. Me chama aqui depois. Gostei de cv com vc.

E então a criatura entra em estado de sofrência virtual, porque foi ignorado por uma pessoa preconceituosa, mesquinha. Ele me perguntou se devemos falar sobre nossas deficiências antes ou depois de conversar. Honestamente? Nenhum das duas opções. Há duas semanas eu estava conversando com um amigo sobre isso. Antes de continuar a leitura, quero que saiba que eu converso sobre jornalismo, direito, tecnologia, política, economia, música nos meus aplicativos de mensagens… Eu hein! Não pense que eu fico só nesse tipo de assunto. Apenas atendo a demanda que me é ofertada. Só isso.

Mas como eu dizia. Conversei com um amigo sobre essa “regra” nos aplicativos de relacionamentos. Ele também é deficiente, sofreu uma amputação do braço devido a um acidente de trabalho. Mas o melhor de conversar com ele é a isenção de frescura. Seu nome? Flávio Heron. Roteirista, 32 anos, solteiro (fica a dica). Nosso papo teve o seguinte relato:

– “Não sei se falaram pra vc, mas qdo o assunto envolve apps de relacionamento (…), acham que eu deveria ter fotos de corpo inteiro pra mostrar a falta do braço pra não causar surpresa, espanto qdo se encontrasse na real. Ou já abrir o jogo, “olá, sou fulano, não tenho um membro”, como se isso fizesse parte do meu cartão de visitas”.

Eu contei pra ele algumas experiências que enfrentei e o tipo de conduta que adotei ao lidar com esse tipo de aplicativo. Não que seja regra, mas aboli a postagem de fotos só de rosto, assim que rolava aquela apresentação básica, já falava sobre minha deficiência. Assim passei evitar aborrecimentos, frustrações desnecessárias. Se a conversa se estendia, eu tinha certeza que minha única preocupação era apresentar o melhor do meu marketing pessoal.

Quando conversei com o Flávio fiquei surpreso em saber que ele também enfrentava a mesma situação que eu, afinal nossas deficiências são muito distintas. Deixa eu tentar explicar…

É gritante a distinção de “oportunidades” entre um cadeirante tetraplégico e um amputado. Não estou dizendo que a ausência de um membro seja mamão com açúcar pra lidar no dia-a-dia, não mesmo. Mas um cadeirante demanda de muito mais acessibilidade, enfrenta mais dificuldades de “aceitação” em grupos de maioria, enfim… Minha surpresa deu-se ao fato do Flávio contar sobre a cobrança de fotos mostrando sua amputação. Nos meus primeiros contatos em sites de relacionamento, eu me preocupava com a aparição de corpo inteiro revelando minha cadeira de rodas, minha estatura etc… Em suma eu era um ser extremamente carente com enorme dificuldade de aceitação da minha anatomia. Acreditava que o Túlio com ensino superior, vinte e alguns anos, gestor de capital humano, graduando de comunicação social (na época), super bem relacionado, portador de uma ambição saudável, aventureiro, músico eclético deveria sobressair ao Túlio com 97cm de altura, vinte e poucos quilos, cadeirante etc…

Grande engano. Pois o Túlio qualificado só é estudado porque o Túlio baixinho, magrinho passou anos dentro de salas de aula. O Túlio cadeirante enfrentou horas e horas extras de trabalho sentado na cadeira de rodas sem nenhuma adaptação, apenas pra provar capacidade e eficácia tanto quanto ou mais que os colegas. O Túlio pianista, músico eclético e apaixonado por partituras, deve muito ao Túlio que brigou várias vezes pra que seus professores no Conservatório de música agendassem as aulas no térreo, pois o prédio não era nada acessível. Impossível existir dois “Túlios”.

Eu sou apenas um. Sou cadeirante, baixinho, magrinho, com ossos frágeis, uso bolsa de colostomia, sonda com cistostomia, tomo quilos e litros de fármacos mensalmente, demando de cuidados de profissionais em minha casa… Mas modéstia a parte e a educação de mamãe, eu sou bem qualificado, tenho uma boa experiência profissional pra minha idade e condição, sou moço de família. A propósito tenho uma família linda com duas mães, um pai que a vida me presenteou, cinco irmãos sendo dois de sangue, três de coração, sou bem relacionado, tenho virilidade, sonhos, projetos, sou culto… E não posso deixar que uma aprovação ou “desaprovação” num aplicativo de relacionamento me coloque numa condição inferior ou superior a ninguém.

O Flávio é um cara com estatura dentro dos padrões, “bonitcheenho”, independente, um put@ profissional, estudante de Direito, não precisa se preocupar em agendar encontros em lugares sem acessibilidade, afinal ele não tem um braço, mas sobe escada, pode chamar Uber sem preocupar se a cadeira de rodas vai caber ou não no porta-malas, ele pode pegar qualquer ônibus, dirigir sem a tutela de um condutor, etc… E mesmo assim ele já trombou com gente medíocre o suficiente pra cobrar “sinceridade” sobre sua deficiência apenas pra não se decepcionarem na hora H.

Caro leitor eu não falei isso pra o Flávio, mas aproveito a deixa e falo pra você e pra ele… Flavio é o seguinte… Quando conversar com alguém e perceber que vai rolar algo, mas a pessoa exigir foto ou detalhe sobre a ausência do seu braço pra não se decepcionar na hora, manda ela ir num açougue, lá é lugar pra escolher que “parte” ou não do corpo deve ser tirada. Eu hein!

O “Donizete Jurandir” tem todos os requisitos pra um bom e saudável relacionamento. Agora precisa aprender a se valorizar. Não precisa se colocar a “venda” pra qualquer público oferecendo pechinchas, não mesmo. Quer usar Apps de relacionamento? Use, mas ative um filtro de acordo com seus desejos, selecione idade, qualificação, localização desejada, gostos em comum etc. Não esteja disposto pra primeira notificação, avalie. Com ou sem deficiência zele pela sua segurança, alimente sua autoestima, sua deficiência não pode e não deve ser passaporte pra uma aventura no território do “amor”. Não prostitua sua personalidade, seus princípios e valores. VA-LO-RES, grave essa palavrinha.

Caro leitor sobre nosso papo de hoje, recomendo que assista ao filme “Como eu era antes de você”, lançado em 2016. O longa conta a história de Will (Sam Claflin), um homem bonito, rico e bem sucedido que leva uma vida repleta de conquistas, viagens e esportes radicais até ser atingido por uma moto, ao atravessar a rua em um dia chuvoso. O acidente o deixa tetraplégico, obrigando-o aprender viver sobre uma cadeira de rodas. A situação o torna depressivo e extremamente cínico, para a preocupação de seus pais (Janet McTeer e Charles Dance). É neste contexto que Louisa Clark, (Emilia Clarke) é contratada para cuidar de Will. Ela é de origem modesta, enfrenta dificuldades financeiras e não têm grandes aspirações na vida, ela faz o possível para melhorar o estado de espírito de Will e, aos poucos, acaba se envolvendo com ele.

A história no filme não é construída num site de relacionamento. Mas retrata como que a autoestima, os princípios e valores são capazes de mudar toda uma vida. Assista e me conte o que achou. Ah e se tiver algo a acrescentar nesse tema, crítica, dúvida, reclamação, sugestão deixe sua mensagem nos meus e-mails: túlio.mendhes@tvintegracao.com.br / maonaroda@tvintegracao.com.br. Será um enorme prazer compartilhar minha opinião diretamente com você. Mais uma vez muito obrigado por sua visita e até quinta-feira com a graça de Deus.

Fonte: G1

FN

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